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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Conflito da Ossétia do Sul : petróleo e poder


Por Humberto Carvalho Jr.


É inacreditável como os noticiários locais se superam cada vez mais na corrida pela desinformação. E com o auxílio do espírito olímpico, ao menos nesta modalidade, a medalha dourada está garantida.

Ainda na abertura das Olimpíadas de Pequim (ou Beijing, se preferir), na sexta (08), os telejornais de Banana Land noticiaram que a Rússia havia bombardeado a Tskinvali, considerada capital da Ossétia do Sul, república separatista da Geórgia, localizado na região do Cáucaso, deixando muitos mortos e feridos. Ainda hoje, muitos brasileiros devem estar pensando como os russos são maus.

Embora muitos analistas russos não acreditassem na possibilidade de uma guerra aberta entre a Rússia e a Geórgia devido às repúblicas separatistas, Ossétia do Sul e Abházia, o conflito foi reativado depois que a Georgia, aliada dos Estados Unidos e União Européia, na quarta-feira (06), ignorou um acordo de cessar-fogo, impetrando um ataque contra a população civil da Ossétia do Sul, com tanques e infantaria, enquanto a força aérea bombardeou a aldeia de Kvernet e um comboio russo de ajuda comunitária. O Parlamento e vários edifícios foram incendiados. Moscou afirma que cerca de 2 mil pessoas morreram e milhares estão desabrigadas.

A Rússia, que apóia o território separatista, revidou, aproveitando para mostrar ao mundo, inclusive aos aliados da Georgia, seu interesse em comandar a região e seu potencial bélico para garantir seus anseios. Para o analista de política internacional, Charles Kupchan, a resposta russa deixou claro que o país está preparado para enfrentar um conflito mais intenso e longo. “Os EUA e a União Européia farão de tudo para evitar este cenário, potencialmente um dos mais perigosos desde o fim da “Guerra Fria”, afirma. Kupchan não acredita que os EUA vão interferir diretamente, considerando que as Forças Armadas Americanas já têm problemas suficientes com o Iraque o Afeganistão.

De acordo com o ministro desta república separatista, Sergei Shamba, a Abkházia, aproveitando-se da situação, declarou neste sábado ter dado início a uma operação militar para expulsar tropas georgianas em Kodori, uma área estreita que corta seu território e é uma rota ideal para qualquer invasão, abrindo um segundo foco de conflito na região.

O conflito dos territórios separatistas tem origens no período no colapso da União Soviética (década de 1980 e 1990), quando o então presidente da Georgia, Zviad Gamsakhrudia, decidiu pôr fim à autonomia destas repúblicas pela força, iniciando uma guerra civil. Moscou apoiou grupos separatistas armados que enfrentaram a Georgia e conseguiram controlar grande parte do território da Ossétia do Sul e Abkházia. Em 1994, a Rússia intermediou um acordo de cessar-fogo e tropas de manutenção de paz russas instalaram-se na região.

Sempre que se elegem, os presidentes georgianos prometem o restabelecimento da unidade territorial. Moscou apóia os separatistas direta e indiretamente. Na Ossétia do Sul, onde cerca de 90% da população possue passaporte russo, a independência do território e sua posterior unificação à Ossétia do Norte (território russo), votadas em dois referendos em 2006, tiveram o apoio da grande maioria dos cidadãos. Os referendos não são reconhecidos sequer pela ONU.

A região do Cáucaso é considerada uma das mais importantes rotas de petróleo e gás natural controlada pela Gazprom, a estatal russa do gás que controla os gasodutos de exportação que saem da Ásia Central e recusa-se a dividir com empresas de fora o acesso aos mercados europeus. A Gazprom exporta 160 bilhões de metros cúbicos de gás natural para a Europa através de gasodutos na Ucrânia e Bielorússia. A empresa fornece 60% do gás natural da Áustria, 35% da Alemanha e 20% da França.

Com receio de que o envolvimento da Rússia possa complicar ainda mais sua relação com países vizinhos como a Ucrânia e Estados Bálticos, o presidente da Georgia, Mikhail Saakachvili aproximou o país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que dificilmente irá lhe socorrer.

O presidente russo, Dmitry Medvedev e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, concordaram nesta terça-feira (12) os elementos-chave do plano de paz com a Geórgia que desencadeou a guerra na região. O plano, uma versão revista de um anterior com quatro propostas elaboradas em conjunto pela UE e pela Organização para a Segurança e Colaboração na Europa (Osce), assinado pelo presidente georgiano, na segunda-feira, não foi aceito na íntegra por Medvedev, que logo defenderá o estatuto de duas repúblicas autoproclamadas.

Apesar de ser apresentado apenas como uma crise nacionalista e geopolítica, evidencia-se que o conflito na região separatista, longe de uma solução pacífica, deve-se a uma disputa tácita (talvez nem tanto) entre Moscou e Washington pelo controle do Cáucaso, interesses puramente econômicos ligados ao petróleo. Sabe-se que entre o direito à autodeterminação dos povos e a inviolabilidade de fronteiras, prevalecerá o direito à manutenção do poder.

2 comentários:

Bruno disse...

E há quem, em tempos de guerra e de conflito armado, usem uma expressão muito perigosa (porque oculta muita coisa), chamada "conflito étnico". O império bem sabe dar a um conflito bélico de causas econômicas uma aparência de conflito étnico. Mas como bem conversavamos certa vez: estamos vendo no plano militar o início de uma guerra que já era travada no plano da economia há muito tempo entre as nações imperialistas...

Fabio Monteiro disse...

E ai Humberto? Perfeito seu texto...é impressionante como parte de nossa mídia toma as dores e posiciona-se a favor dos EUA.

Parabéns pelo blog!